Ferramentas Pessoais
Você está aqui: Página Inicial Notícias ENCONTRARTE – o dia que ficou na história

ENCONTRARTE – o dia que ficou na história

Cheny Wa Gune pisou pela primeira vez no continente americano em 3 de novembro de 2008. Aterrissou no Brasil, no aeroporto de Guarulhos. Ele e o grupo de teatro Mutumbela Gogo haviam recebido um convite para participar da I Semana de Cultura de Moçambique, em Brasília.

ENCONTRARTE – o dia que ficou na história

Cheny Wa Gune

Aproveitando a oportunidade, ele passou pela turbulenta cidade de São Paulo para fazer uma única apresentação.
Depois da viagem tumultuada, com visto e vacina de última hora, perda do vôo, extravio de bagagem, Cheny chegou ao destino, na véspera do show, sem a timbila, instrumento que ele costuma chamar de sua “esposa”. A timbila fora perdida em algum aeroporto do mundo, sem previsão de retorno breve ao seu dono.
Conhecer o Brasil era um antigo desejo do jovem músico moçambicano que ouvia as canções de Lenine e se transportava para as terras tupi-guaranis.
Ele fora convidado para participar do projeto ENCONTRARTE – a música é a nossa língua (diálogos musicais: Moçambique, Peru, Cuba e Brasil), no Centro Cultural Rio Verde, em São Paulo.
4 de novembro de 2008. Este dia ficou na história. Cheny fez sua apresentação no Brasil e Barak Hussen Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos. Sem que houvéssemos premeditado, o ENCONTRARTE tornou-se uma metáfora desse acontecimento histórico. Reunimos ali não apenas pessoas, mas desejos de entendimento, esperanças de uma construção coletiva composta de todas as cores.
Na primeira edição do Encontro, estiveram presentes músicos de peso na cena latino-americana. Cheny Wa Gune partilhou o palco com nada menos que o pianista cubano Pepe Cisneros, que recentemente gravou com George Benson; Serginho Carvalho, que acompanha Djavan há muitos anos; Guga Stroeter, regente da HB Big Band; Chocolate, percussionista peruano de música afro-indígena; Andréa Drigo, cantora e multiinstrumentista; Alysson Bruno, jovem percussionista e Ogan de Candomblé; e Dinho Nascimento, um dos maiores percussionistas brasileiros. Uma fina mistura de estilos, gerações e culturas!
O Centro Cultural Rio Verde estava iluminado, cheio de gente interessante, músicos e pesquisadores de novas sonoridades.
A convidada de honra do encontro não compareceu, mas como “o som não pode parar”, Cheny priorizou o compromisso com o público e com a banda: fez o seu primeiro show sem sua timbila.
Começou improvisando um solo no vibrafone, instrumento que ele nunca havia tocado, mas que se assemelha à timbila. Explicou ao público o incidente ocorrido com sua “esposa” e os ouvintes ficaram impressionados com tamanha coragem e talento do músico, que demonstrou grande habilidade com o vibrafone.
Seguiu a apresentação tocando m’bira e vali (instrumentos tradicionais africanos), acompanhado pelo coro da platéia, totalmente envolvida.
Um dos momentos mais emocionantes da noite foi quando Cheny convidou Dinho Nascimento para um dueto de berimbau e xitende. Os dois instrumentos de arco, corda e cabaça vibraram juntos. O berimbau e seu ancestral africano se reencontraram e ficou forte, para quem estava lá, a sensação de que nem o tempo e nem a distância podem nos separar.
Os outros músicos entraram nessa mesma sintonia e mostraram o poder que a música tem de comunicar e aproximar as pessoas. Eles aprenderam algumas composições de Cheny, brincaram com os temas e improvisaram com a sabedoria e a escuta de bons músicos que são. A platéia entrou na brincadeira e todo mundo compreendeu o prazer de “encontrarte”.
A timbila chegou. O show já havia terminado, e bem. O episódio serviu para boas conversas musicais, sem solos virtuosos. Um novo espaço se criou nesse dia e a conexão se estabaleceu.
Cheny Wa Gune veio de Moçambique até aqui não apenas para uma apresentação, veio também comemorar com a gente o prenúncio de novos tempos, compartilhar esse momento impar. Ele veio fortalecer os elos, manter a ponte invisível que nos une, para que esse fluxo continue, para que haja mais diálogo, mais troca e mais pontos de convergência entre nós.

São Paulo, 6 de novembro de 2008

Tenka Dara



Ações do documento